UM COPO DE CÓLERA
Raduan Nassar
Cia das Letras, 2001.
No primeiro parágrafo, nos conta Raduan Nassar:
A CHEGADA
E
quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo
gramado, veio me abrir o portão pra que eu entrasse com o carro, e logo que saí
da garagem subimos juntos a escada pro terraço, e assim que entramos nele abri as
cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com os nossos
olhos voltados pro alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos
os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, muito
disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do
poente, e só foi mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já
jantou?” e como ela dissesse “mais tarde” eu então me levantei e fui sem pressa
pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e
passei água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida
ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora
eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela
que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na
mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como
os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e
sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência, e
sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe
parecesse, eu só sei que quando acabei de comer, o tomate eu a deixei ali na
cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra
cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra
entramos quase juntos na penumbra do quarto.

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