CIDADES
INVISÍVEIS
Italo
Calvino
Tradução:
Diego Mainardi
Cia.
Das Letras, 1998
No primeiro
parágrafo, nos conta Calvino:
1
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Não se sabe se Kublai Khan acredita
em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em
suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a
ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro
de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que
se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territórios que conquistamos, à
melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e compreendê-los,
uma sensação de vazio que surge ao calar da noite com o odor dos elefantes após
a chuva e das cinzas de sândalo que se resfriam nos braseiros, um vertigem que
faz estremecer os rios e as montanhas historiadas nos fulvos dorsos dos
planisférios, enrolando um depois do outro os despachos que anunciam o
aniquilamento dos últimos exércitos inimigos de derrota em derrota, e abrindo o
lacre dos sinetes de reis dos quais nunca se ouviu falar e que imploram a proteção
das nossas armadas avançadas em troca de impostos anuais de metais precisos,
peles curtidas e cascos de tartarugas: é
o desesperado momento em que se descobre que este império, que nos parecia a
soma de todas as maravilhas, é um esfacelo sem fim e sem forma, que a sua
corrupção é gangrenosa demais para ser remediada pelo nosso cetro, que o triunfo
sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros de suas prolongadas ruínas.
Somente nos relatórios de Marco Polo, Kublai Khan conseguia discernir, através
das muralhas e das torres destinadas a desmoronar, a filigrana de um desenho
tão fino a ponto de evitar as mordidas dos cupins.
