VIVA O POVO BRASILEIRO
João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira
No primeiro parágrafo, nos conta João
Ubaldo:
I
Contudo, nunca foi estabelecida a primeira encarnação do
Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponte das
Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra
ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão
com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e
sem ter feito qualquer coisa de memorável. É certamente com a imaginação vazia
que aqui desfruta desta viração anterior à morte, pois não viveu o bastante
para realmente imaginar, como até hoje fazem os muito idosos em sua terra,
todos demasiado velhos para poder experimentar seja lá seja, e então deliram de
cócoras com seus cachimbos de três palmos, rodeados pelo fascínio dos mais
novos e mentindo estupendamente. E talvez falte apenas um minuto, talvez menos,
para que os portugueses apareçam à frente deste sol forte de inverno na Baía de
Todos os Santos e façam enxamear sobre ele aquelas esferazinhas de ferro e pedra que o matarão
com grande dor, furando-lhe um olho, estilhaçando-lhe os ossos da cabeça e
obrigando-o a curvar-se abraçado a si mesmo, sem poder pensar em sua morte. No
quadro “Alferes Brandão Perora às Gaivotas”, vê-se que é o 10 de junho de 1822,
numa folhinha que singra os ares, portada de um lado pelo bico de uma gaivota e
do outro pelo aguço de uma lança envolvida nas cores e insígnias da liberdade.
Já mortalmente atingido, erguendo-se com um olho a escorrer pela barba abaixo,
ele arengou as gaivotas que, antes distraídas, adejavam sobre os brigues e
baleeiras do comandante português Trinta Diabos. Disse-lhes não uma mas muitas
frases célebres, na voz trêmula porém estentórea desde então sempre imitada nas
salas de aula ou, faltando estas, nas visitas em que é necessário ouvir
discursos. Pois, se depois da metralha portuguesa não havia ali mais que as
aves marinhas, o oceano e a indiferença dos acontecimentos naturais, havia o
suficiente para que se gravassem para todo o sempre na consciência dos homens as
palavras que ele agora pronuncia, embora
daqui não se ouçam, nem de mais perto, nem se vejam seus lábios movendo-se, nem
se enxergue em seu rosto mais que a expressão perplexa de quem morre sem saber.
Mas são palavras nobres contra a tirania e a opressão sopradas pela morte nos
ouvidos do alferes, e são portanto verdadeiras.
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