segunda-feira, 23 de maio de 2016

O arranjador de palavras

foto by: Roberto Candido


O arranjador de palavras
J.cordeirovich
Scortecci Editora, 
outono de 2016.



 No primeiro parágrafo, digo poema, nos conta: J.cordeirovich:


Vidraça


No deserto aqui sentado da sala
Nem um Outro se aproxima
Nem dos livros ali largados
Nem o vapor do aço
De quem nos dita do valor das horas
Transcorrendo calmamente

Minhas mãos espalmadas
Na escuridão
A escorregar
Nave no lá
Aurora deixada no ar

O som da vizinha casa me vem
E o silêncio também pede
Uma orquestra

Quem está em cena?
É bela morena
Que fala, fala, faz
Ao sincronizar
Pontas de pés
Ajustados em brancas sapatilhas
Que justamente
Como quem dedilha
No chão, no ar
O risco
Um piano de Chopin
Um iluminador tardio
Velho funcionário do
Mais velho ainda, teatro.

Deixa que apenas
Uma aresta de luz
Na cena, mostre bela e plena
Numa magistral visão
Braço, coxa, seios
Pernas, pés.
E o vão do não
Da vaga rua

Desenhada no ar
A melodia entra em convulsão
Não,
Concluo.
Há cinema nisso que vejo
Na vidraça holográfica
Do real que reúne e entorpece
num cinema de cores.



2 comentários:

  1. Eu ouvi, não eram somente palavras, há algo pra além das palavras, não eram só palavras, como diria? Eram palavras mas iam além.

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  2. Estratégia matreira de um cozinheiro de "pedras" palavras, que resultam em n'algo novo aos olhos-ouvidos do leitor. Ouvi-lê!

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