quinta-feira, 2 de junho de 2016

UM COPO DE CÓLERA








UM COPO DE CÓLERA
Raduan Nassar
Cia das Letras, 2001.



No primeiro parágrafo, nos conta Raduan Nassar:



A CHEGADA


E quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão pra que eu entrasse com o carro, e logo que saí da garagem subimos juntos a escada pro terraço, e assim que entramos nele abri as cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com os nossos olhos voltados pro alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e só foi mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” e como ela dissesse “mais tarde” eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer, o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O arranjador de palavras

foto by: Roberto Candido


O arranjador de palavras
J.cordeirovich
Scortecci Editora, 
outono de 2016.



 No primeiro parágrafo, digo poema, nos conta: J.cordeirovich:


Vidraça


No deserto aqui sentado da sala
Nem um Outro se aproxima
Nem dos livros ali largados
Nem o vapor do aço
De quem nos dita do valor das horas
Transcorrendo calmamente

Minhas mãos espalmadas
Na escuridão
A escorregar
Nave no lá
Aurora deixada no ar

O som da vizinha casa me vem
E o silêncio também pede
Uma orquestra

Quem está em cena?
É bela morena
Que fala, fala, faz
Ao sincronizar
Pontas de pés
Ajustados em brancas sapatilhas
Que justamente
Como quem dedilha
No chão, no ar
O risco
Um piano de Chopin
Um iluminador tardio
Velho funcionário do
Mais velho ainda, teatro.

Deixa que apenas
Uma aresta de luz
Na cena, mostre bela e plena
Numa magistral visão
Braço, coxa, seios
Pernas, pés.
E o vão do não
Da vaga rua

Desenhada no ar
A melodia entra em convulsão
Não,
Concluo.
Há cinema nisso que vejo
Na vidraça holográfica
Do real que reúne e entorpece
num cinema de cores.



sexta-feira, 5 de junho de 2015

ARTE E CIÊNCIA DE ROUBAR GALINHA




ARTE E CIÊNCIA DE ROUBAR GALINHA
João Ubaldo Ribeiro
Editora Nova Fronteira














No primeiro parágrafo, nos conta João Ubaldo,



Padecendo no inferno mesmo


                Eu o conheço pouco. Ou talvez o conheça muito, embora não saiba de muitas coisas sobre ele. Ele tem seis filhos. Sei disso porque, no tempo em que eu andava solteiro e solitário por esses bares daqui, carregando dementemente um livro para ler numa mesa geralmente mal--iluminada, ele apareceu numa noite de quinta-feira e, desde essa noite, a gente sempre se via e batia papo. Na segunda dessas quintas-feiras, ele estava preocupado, exatamente porque ia nascer o sexto filho.





quarta-feira, 8 de abril de 2015

O EVANGELHO COM DOM HÉLDER


O EVANGELHO COM DOM HÉLDER
Dom Hélder Câmara
Civilização Brasileira, 1987







No primeiro parágrafo nos conta, Dom Hélder:

1

Roger Bourgeon: - Por que falar de Jesus nos dias que vivemos?


Dom Hélder: - Porque esse homem marcou para todo o sempre a história da humanidade, porque ele continua vivo dentro dessa história. Eu o reencontro todos os dias, sempre atuante, a cada passo que dou. Ele se identificou um dia com todos aqueles que sofrem, com os humilhados e ofendidos. Nos dias que atravessamos, em que mais de dois terços da humanidade vivem em condições sub-humanas, é facílimo encontra-lo em toda parte, perfeitamente vivo.







segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO - SEI PROPOSTE PER IL PROSSIMO MILLENNIO














SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO
SEI PROPOSTE PER IL PROSSIMO MILLENNIO
Italo Calvino
Tradução: Ivo Barroso
Cia das Letras, 1988





No primeiro parágrafo, nos conta Calvino:

1
LEVEZA

Esta primeira conferência será dedicada à oposição leveza-peso, e argumentarei a favor da leveza. Não quer dizer que considero menos válidos os argumentos do peso, mas apenas que penso ter mais coisas a dizer sobre a leveza.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VIVA O POVO BRASILEIRO - JOÃO UBALDO RIBEIRO










VIVA O POVO BRASILEIRO
João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira









No primeiro parágrafo, nos conta João Ubaldo: 


I


Contudo, nunca foi estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponte das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável. É certamente com a imaginação vazia que aqui desfruta desta viração anterior à morte, pois não viveu o bastante para realmente imaginar, como até hoje fazem os muito idosos em sua terra, todos demasiado velhos para poder experimentar seja lá seja, e então deliram de cócoras com seus cachimbos de três palmos, rodeados pelo fascínio dos mais novos e mentindo estupendamente. E talvez falte apenas um minuto, talvez menos, para que os portugueses apareçam à frente deste sol forte de inverno na Baía de Todos os Santos e façam enxamear sobre ele aquelas esferazinhas de ferro e pedra que o matarão com grande dor, furando-lhe um olho, estilhaçando-lhe os ossos da cabeça e obrigando-o a curvar-se abraçado a si mesmo, sem poder pensar em sua morte. No quadro “Alferes Brandão Perora às Gaivotas”, vê-se que é o 10 de junho de 1822, numa folhinha que singra os ares, portada de um lado pelo bico de uma gaivota e do outro pelo aguço de uma lança envolvida nas cores e insígnias da liberdade. Já mortalmente atingido, erguendo-se com um olho a escorrer pela barba abaixo, ele arengou as gaivotas que, antes distraídas, adejavam sobre os brigues e baleeiras do comandante português Trinta Diabos. Disse-lhes não uma mas muitas frases célebres, na voz trêmula porém estentórea desde então sempre imitada nas salas de aula ou, faltando estas, nas visitas em que é necessário ouvir discursos. Pois, se depois da metralha portuguesa não havia ali mais que as aves marinhas, o oceano e a indiferença dos acontecimentos naturais, havia o suficiente para que se gravassem para todo o sempre na consciência dos homens as palavras que  ele agora pronuncia, embora daqui não se ouçam, nem de mais perto, nem se vejam seus lábios movendo-se, nem se enxergue em seu rosto mais que a expressão perplexa de quem morre sem saber. Mas são palavras nobres contra a tirania e a opressão sopradas pela morte nos ouvidos do alferes, e são portanto verdadeiras.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A CIDADE E AS SERRAS - EÇA DE QUEIROZ








A CIDADE E AS SERRAS
Eça de Queiroz
Edições de ouro


No primeiro parágrafo, nos conta Eça:



I

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura , de vinhedo, de cortiça e de olival.