segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO - SEI PROPOSTE PER IL PROSSIMO MILLENNIO














SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO
SEI PROPOSTE PER IL PROSSIMO MILLENNIO
Italo Calvino
Tradução: Ivo Barroso
Cia das Letras, 1988





No primeiro parágrafo, nos conta Calvino:

1
LEVEZA

Esta primeira conferência será dedicada à oposição leveza-peso, e argumentarei a favor da leveza. Não quer dizer que considero menos válidos os argumentos do peso, mas apenas que penso ter mais coisas a dizer sobre a leveza.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VIVA O POVO BRASILEIRO - JOÃO UBALDO RIBEIRO










VIVA O POVO BRASILEIRO
João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira









No primeiro parágrafo, nos conta João Ubaldo: 


I


Contudo, nunca foi estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponte das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável. É certamente com a imaginação vazia que aqui desfruta desta viração anterior à morte, pois não viveu o bastante para realmente imaginar, como até hoje fazem os muito idosos em sua terra, todos demasiado velhos para poder experimentar seja lá seja, e então deliram de cócoras com seus cachimbos de três palmos, rodeados pelo fascínio dos mais novos e mentindo estupendamente. E talvez falte apenas um minuto, talvez menos, para que os portugueses apareçam à frente deste sol forte de inverno na Baía de Todos os Santos e façam enxamear sobre ele aquelas esferazinhas de ferro e pedra que o matarão com grande dor, furando-lhe um olho, estilhaçando-lhe os ossos da cabeça e obrigando-o a curvar-se abraçado a si mesmo, sem poder pensar em sua morte. No quadro “Alferes Brandão Perora às Gaivotas”, vê-se que é o 10 de junho de 1822, numa folhinha que singra os ares, portada de um lado pelo bico de uma gaivota e do outro pelo aguço de uma lança envolvida nas cores e insígnias da liberdade. Já mortalmente atingido, erguendo-se com um olho a escorrer pela barba abaixo, ele arengou as gaivotas que, antes distraídas, adejavam sobre os brigues e baleeiras do comandante português Trinta Diabos. Disse-lhes não uma mas muitas frases célebres, na voz trêmula porém estentórea desde então sempre imitada nas salas de aula ou, faltando estas, nas visitas em que é necessário ouvir discursos. Pois, se depois da metralha portuguesa não havia ali mais que as aves marinhas, o oceano e a indiferença dos acontecimentos naturais, havia o suficiente para que se gravassem para todo o sempre na consciência dos homens as palavras que  ele agora pronuncia, embora daqui não se ouçam, nem de mais perto, nem se vejam seus lábios movendo-se, nem se enxergue em seu rosto mais que a expressão perplexa de quem morre sem saber. Mas são palavras nobres contra a tirania e a opressão sopradas pela morte nos ouvidos do alferes, e são portanto verdadeiras.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A CIDADE E AS SERRAS - EÇA DE QUEIROZ








A CIDADE E AS SERRAS
Eça de Queiroz
Edições de ouro


No primeiro parágrafo, nos conta Eça:



I

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura , de vinhedo, de cortiça e de olival.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

1968, O ANO QUE NÃO TERMINOU









1968

O ANO QUE NÃO TERMINOU
Zuenir Ventura
Círculo do Livro




1.     O rito de passagem


No primeiro parágrafo, nos conta Zuenir:


“Não acreditava em sonhos e mais nada. Apenas a carne me ardia, e nela eu me encontrava.”
Paulo, o intelectual de Terra em transe.

   

   A crônica da época não lhe dedicou mais do que magras quinze linhas. Nos registros existentes, ele consta apenas como uma das inúmeras festas que marcaram a entrada daquele distante 1968. E, no entanto, para os que viveram o que seria um banal acontecimento, ele permanece como um misterioso marco cujos símbolos e significados ocultos a memória e o tempo vão-se encarregando de descobrir, ou de criar, até obter o material com que se fazem os mitos.

domingo, 15 de junho de 2014

DENTRO DE UM MÊS, DENTRO DE UM ANO - FRANÇOISE SAGAN











DENTRO DE UM MÊS, DENTRO DE UM ANO
Françoise Sagan
Tradução: Ângela Carneiro
Editora Record




No primeiro parágrafo, nos conta Sagan:


BERNARD entrou no café, hesitou um instante sob o olhar de alguns fregueses desfigurados pelo neon e dirigiu-se à moça do caixa. Gostava das caixas dos cafés, opulentas, dignas, perdidas num sonho entrecortado de moedas e fósforos. Ela lhe estendeu a ficha sem sorrir, com um ar cansado. Eram quase quatro horas da manhã. A cabine telefônica estava suja, o receptor  úmido. Discou o número de  Josée e, subitamente, compreendeu que sua marcha forçada pelas ruas de Paris, durante a noite inteira, tivera por único objetivo o momento em que estaria suficientemente cansado para executar, maquinalmente, aqueles gestos.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS - MACHADO DE ASSIS






MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Machado de Assis
Coedição: Estadão - Klick Editora


No primeiro parágrafo, nos conta Machado:



1   -     Ó B I T O   D O   A U T O R


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco (*).

(*) Os Cinco Livros de Moisés, os primeiros da Bíblia, vão do Gênese até o Deuteronômio.



segunda-feira, 9 de junho de 2014

0 GATINHO MI - JOSÉ CARLOS CORDEIRO E GLEN MARTINS









O GATINHO MI 
Texto: José Carlos Cordeiro 
Ilustrações: Glen Martins 
Editora Salesiana



No primeiro parágrafo, nos contam Cordeiro (pela letra) e Glen(pelo traço):



O gatinho mi

não para em nenhum lugar:

vem pra cá, corre ali,

vai pra lá...