segunda-feira, 23 de junho de 2014

1968, O ANO QUE NÃO TERMINOU









1968

O ANO QUE NÃO TERMINOU
Zuenir Ventura
Círculo do Livro




1.     O rito de passagem


No primeiro parágrafo, nos conta Zuenir:


“Não acreditava em sonhos e mais nada. Apenas a carne me ardia, e nela eu me encontrava.”
Paulo, o intelectual de Terra em transe.

   

   A crônica da época não lhe dedicou mais do que magras quinze linhas. Nos registros existentes, ele consta apenas como uma das inúmeras festas que marcaram a entrada daquele distante 1968. E, no entanto, para os que viveram o que seria um banal acontecimento, ele permanece como um misterioso marco cujos símbolos e significados ocultos a memória e o tempo vão-se encarregando de descobrir, ou de criar, até obter o material com que se fazem os mitos.

domingo, 15 de junho de 2014

DENTRO DE UM MÊS, DENTRO DE UM ANO - FRANÇOISE SAGAN











DENTRO DE UM MÊS, DENTRO DE UM ANO
Françoise Sagan
Tradução: Ângela Carneiro
Editora Record




No primeiro parágrafo, nos conta Sagan:


BERNARD entrou no café, hesitou um instante sob o olhar de alguns fregueses desfigurados pelo neon e dirigiu-se à moça do caixa. Gostava das caixas dos cafés, opulentas, dignas, perdidas num sonho entrecortado de moedas e fósforos. Ela lhe estendeu a ficha sem sorrir, com um ar cansado. Eram quase quatro horas da manhã. A cabine telefônica estava suja, o receptor  úmido. Discou o número de  Josée e, subitamente, compreendeu que sua marcha forçada pelas ruas de Paris, durante a noite inteira, tivera por único objetivo o momento em que estaria suficientemente cansado para executar, maquinalmente, aqueles gestos.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS - MACHADO DE ASSIS






MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Machado de Assis
Coedição: Estadão - Klick Editora


No primeiro parágrafo, nos conta Machado:



1   -     Ó B I T O   D O   A U T O R


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco (*).

(*) Os Cinco Livros de Moisés, os primeiros da Bíblia, vão do Gênese até o Deuteronômio.



segunda-feira, 9 de junho de 2014

0 GATINHO MI - JOSÉ CARLOS CORDEIRO E GLEN MARTINS









O GATINHO MI 
Texto: José Carlos Cordeiro 
Ilustrações: Glen Martins 
Editora Salesiana



No primeiro parágrafo, nos contam Cordeiro (pela letra) e Glen(pelo traço):



O gatinho mi

não para em nenhum lugar:

vem pra cá, corre ali,

vai pra lá...







sábado, 7 de junho de 2014

VENTANIA - ALCIONE ARAÚJO











VENTANIA
Alcione Araújo
Editora Record




No primeiro parágrafo, nos conta Alcione:


LÁ VEM O ZEJOSÉ DE NOVO! TERCEIRA VEZ NA SEMANA. BANHO tomado, cabelo penteado, camisa limpa, nem parece o moleque de sempre – a não ser pela bicicleta. Alguma coisa ele fareja nessa praça! Repete tudo que fez nas outras vezes: costeia a bicicleta com quem ronda, espiando pelas janelas. Na esquina, vigia a rua, a praça, e volta no mesmo passo! Procura o quê, se nunca entrou lá? O que esse fedelho, que nuca leu um livro, quer na biblioteca? Se viesse pegar livro pra mãe, não rodeava nem vinha três vezes. Pra ela não é; desde que ficou meio sistemática, não pega mais livro! É muito estranho.









sexta-feira, 6 de junho de 2014

A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA - UMBERTO ECO














A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA
Umberto Eco
Tradução: Eliana Aguiar
EDITORA RECORD





No primeiro parágrafo, nos conta Eco:


“E o senhor, como se chama?”
“Espere, está na ponta da língua.”

Tudo começou assim.

Era como se acordasse de um longo sono, e no entanto ainda estava suspenso em um cinza leitoso. Ou quem sabe não estava acordado, mas sonhando. Era um estranho sonho, desprovido de imagens, povoado por sons. Como se não visse, mas ouvisse vozes que me contavam o que devia ver. E contavam que eu ainda não via nada exceto um fumegar ao longo dos canais, onde a paisagem se dissolvia. Brugues, disse a mim mesmo, estava em Bruges, já estivera em Bruges, a morta? Onde a névoa flutua entre torres como o incenso que sonha? Uma cidade cinzenta, triste como uma tumba florida de crisântemos onde a bruma pende desbeiçada das fachadas como um arrás... 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

OS MEUS AMORES













OS MEUS AMORES
Trindade Coelho
Editora Três





No primeiro parágrafo, nos conta Trindade: (¹)


Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais insignificante ruído. Dormia-se o sono solto por todas aquelas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. De onde em onde, galos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boêmios, nalguma estúrdia a desoras...


(¹)  do Conto: Idílio rústico 

DOIS IRMÃOS











DOIS IRMÃOS
Milton Hatoum
Cia. Das Letras



No primeiro parágrafo, nos conta Hatoum:



ZANA TEVE DE DEIXAR TUDO:  o bairro portuário de Manaus, a rua em declive sombreada por mangueiras centenárias, o lugar que para ela era quase tão vital quanto a Biblos de sua infância: a pequena cidade do Líbano que ela recordava em voz alta, vagando pelos aposentos empoeirados até se perder no quintal, onde a copa da velha seringueira sombreava as palmeiras e pomar cultivados por mais de meio século.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER - NESNESITELNÁ LEHKOST BYTÍ
















A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
Milan Kundera
Tradução: Teresa B. Carvalho da Fonseca
Editora Nova Fronteira




No primeiro parágrafo, nos conta Kundera:


1


O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?